FHC e sua luta pelo THC

Por que o ex-presidente está rodando o mundo em campanha pela liberação da maconha e drogas
Marcelo Moura

Fernando Henrique Cardoso foi presidente da República entre 1995 a 2002. Ficou conhecido como “pai do Plano Real”, por ter implantado o pacote econômico que pôr fim à hiperinflação no Brasil. Agora ganha outros apelidos como “THC”, trocadilho entre o principal princípio ativo da maconha com “FHC”, seu quase-nome. A poucos dias de completar 80 anos, Fernando Henrique está rodando o mundo em campanha pela liberação do consumo de drogas. No dia 2 de junho, entregou ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, uma proposta de revisão na política de combate às drogas. Sua peregrinação foi registrada no documentário Quebrando o tabu, dirigido por Fernando Grostein Andrade, com estreia no dia 3 de junho.

ÉPOCA – A democracia, o combate à fome e ao aquecimento global não são temas mais urgentes que a descriminalização da maconha?
Fernando Henrique Cardoso – Os grandes temas não se inserem numa hierarquia de prioridades. No mundo de hoje, as mais diversas comunidades de interesse se mobilizam em torno a diversas causas. O tema das drogas, por suas conexões com a corrupção, violência e crime, é um problema que afeta a todos e precisa ser enfrentado em seus múltiplos aspectos. No Brasil, inúmeros jovens continuam a matar e morrer numa guerra inútil e sem fim.

ÉPOCA – Qual é a sua proposta de política em relação às drogas?
Fernando Henrique – Ao invés de estigmatizar e criminalizar o usuário, oferecer tratamento e reabilitação. Investir na informação e prevenção para reduzir o consumo de drogas. Encorajar governos e sociedades a discutir formas de regulação de drogas como a maconha com o objetivo de reduzir o poder do narcotráfico e preservar a saúde e a segurança das pessoas.
ÉPOCA – O consumo de drogas foi descriminalizado no Brasil, mas não durante seus oito anos de governo. O senhor mudou de opinião? Por quê?
Fernando Henrique – Sim, eu mudei de opinião. Na Presidência não dispunha das informações que tenho hoje e compartilhava da visão predominante de que droga se resolvia sobretudo com repressão. Quanto mais me envolvi com o estudo da questão, ouvindo as vítimas, visitando experiências em diferentes países do mundo e conversando com especialistas de saúde e segurança, fui me convencendo de que a erradicação total das drogas pela via repressiva é objetivo inviável que bloqueia o caminho para soluções alternativas mais humanas como a redução do dano e a redução do consumo. Mas, sobretudo, me convenci da absoluta necessidade de se quebrar o tabu que impede um debate amplo sobre drogas na sociedade. Essa é a pré-condição para que cada país venha a encontrar o modo de lidar com o problema mais apropriado a sua história e sua cultura.
ÉPOCA – O documento entregue às Nações Unidas argumenta que a atual política antidrogas da ONU não se mostrou eficiente. Antonio Maria Costa, diretor da UNODC até 2010, afirma que a política atual é um sucesso. Afirma que nos últimos dez anos, o consumo global de cocaína, anfetaminas e ecstasy se estabilizou, e o consumo de maconha cai desde 2004. O senhor discorda dele?
Fernando Henrique – Um número crescente de países trata os dependentes de drogas como pacientes que necessitam de tratamento e não como criminosos a colocar na cadeia. Em nenhum desses países a adoção dessas políticas se traduziu em aumento do consumo. Muito pelo contrário. Eles apresentam os melhores indicadores em termos de redução de mortes por overdose e de contaminação pelo vírus do HIV. O Relatório da Comissão discute em detalhe os resultados destas políticas inovadoras que vêm sendo objeto de estudos e avaliações pelos especialistas. Repito: o essencial aqui é perder o medo e quebrar o silêncio sobre drogas e falar abertamente sobre o tema. Cada um então pode formar sua opinião e influir no debate público.
ÉPOCA – O documentário apresenta o depoimento de ex-presidentes dos Estados Unidos que, a exemplo do senhor, defendem ideias em relação às drogas diferentes daquelas seguidas por seus governos. A presidência oprime as ideias do presidente?
Fernando Henrique – Um ex-presidente tem mais liberdade para falar sobre temas controversos. Hoje estou convencido de que questões que envolvem valores e comportamentos devem ser em primeiro lugar discutidas pela sociedade. Claro que chega o momento em que as decisões passam para governos e parlamentos. Daí a importância de propor a abertura de um grande debate, sem preconceitos, sobre um problema que afeta de perto tantas famílias.
ÉPOCA – É inevitável traçar um paralelo entre o seu filme Quebrando o tabu e o documentário Uma verdade inconveniente, contra o aquecimento global, com o ex-vice-presidente americano Al Gore. Como o senhor encara a possibilidade de ser chamado de “Al Gore da maconha”?
Fernando Henrique – Procuro cumprir meu papel de catalisador de um debate sobre temas que me parecem fundamentais na sociedade contemporânea. Imagino que há gente que vai estar de acordo, outros que vão achar que deveria ter ido mais longe e, certamente, outros que vão achar que estou sendo por demais audacioso. Ótimo. Em sociedades abertas e democráticas a opinião se forma neste entrechoque de ideias.

Publicado em junho 6, 2011, em Noticias e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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